1 – Quais as principais tendências no controle da qualidade do concreto?
As novas tecnologias relacionadas ao concreto apontam para produtos com características especiais, como os auto-adensáveis (CAA) e os de alto desempenho (CAD), já conhecidos entre nós, porém ainda pouco utilizados no Brasil (menos de 5% do total de concreto usinado usado no País), que requerem cuidados diferenciados para sua preparação, controle e recebimento; cuidados esses já cobertos pela normalização técnica vigente.
Esse tipo de concreto dificilmente é preparado na obra e atualmente apenas pequena porcentagem do concreto preparado no Brasil é dosado em central e entregue em caminhões-betoneira, realidade que diverge da constatada nos países da Comunidade Européia e Estados Unidos (neste último cerca de 90% do concreto aplicado é dosado em central). No Brasil, na ausência de um dado estatístico direto, usa-se como referência o destino de 17% da produção de cimento para o consumo das concreteiras.
De todo o concreto preparado nos canteiros de obras no Brasil, apenas uma pequena parcela é submetida ao controle de qualidade laboratorial; caso das grandes obras de infra-estrutura, cujos canteiros dispõem de laboratórios próprios, além de construtoras que contratam o controle tecnológico de forma independente, tendo elas mesmas se responsabilizado pela dosagem do material. Estima-se que mais da metade de todo o concreto preparado no País não seja submetido a nenhum tipo de controle em laboratório, portanto, ampliar a abrangência desse procedimento seria uma meta interessante, mas para isso é preciso ter uma rede de laboratórios que consiga atender a todo o mercado, com qualidade.
2 – O que construtores, concreteiras, projetistas e laboratórios podem fazer para manter a qualidade no controle tecnológico dos concretos?
A conscientização do meio técnico sobre as prescrições normativas e a melhor comunicação entre os diversos intervenientes no processo construtivo são os primeiros (e acredito que mais importantes) passos para manter a qualidade desejada do concreto em suas diversas aplicações.
Mundialmente o controle tecnológico do concreto é estabelecido por normas técnicas. No Brasil, a ABNT NBR 12655 estabelece o procedimento para preparo, controle e recebimento do concreto e referencia normas específicas para a retirada de amostras do material e para os ensaios a serem realizados de forma a se comprovar sua qualidade.
A atual complexidade das construções modernas, função do avanço tecnológico e das inúmeras solicitações da sociedade dos nossos dias, impossibilita que todos os profissionais conheçam a fundo todas as áreas do conhecimento. Assim, é fato que projetistas estruturais sejam mais afeitos à norma de projeto de estruturas de concreto (ABNT NBR 6118), construtores tenham como base para seu trabalho a norma de execução de estruturas (ABNT NBR 14931), empresas de serviços de concretagem tenham como principal instrumento de trabalho a norma de especificação de concreto dosado em central (ABNT NBR 7212) e tecnologistas de concreto conheçam a fundo a ABNT NBR 12655 e suas referências normativas.
No entanto, todas essas Normas Brasileiras foram elaboradas focando as melhores práticas e as peculiaridades de cada elo da cadeia construtiva e inter-relacionando suas atribuições, deixando claros os aspectos a serem observados para se chegar ao melhor resultado em cada caso.
As normas de projeto e execução, por exemplo, estabelecem explicitamente a necessidade de atendimento à norma de preparação e controle do concreto, tendo-se na primeira (ABNT NBR 6118) a base para os parâmetros de qualidade que são mais profundamente avaliados na outra (ABNT NBR 12655).
Com base nesses documentos, constata-se que cabe aos projetistas decidirem sobre a classe de agressividade ambiental em que se insere a estrutura a ser projetada, de comum acordo com seus contratantes, ponto inicial para se tomar decisões sobre o concreto a ser usado na obra. A partir dessa decisão, cabe a esse profissional a escolha da resistência característica à compressão do concreto (fck) em função da classe de agressividade ambiental e do tipo de concreto (armado ou protendido) a ser usado. O projetista deve registrar o fck em todos os documentos do projeto estrutural e, a partir desse parâmetro, obter a resistência de projeto com que irá trabalhar (fcd = fck/c).
A ABNT NBR 6118 estabelece adicionalmente a relação água/cimento máxima para cada classe de resistência do concreto e classe de agressividade ambiental, tendo em vista cumprir com as exigências de durabilidade da estrutura. Muitos projetistas estruturais já registram essa informação, dada pela Norma, nos documentos emitidos, assim como a dimensão máxima característica do agregado graúdo, considerando o espaçamento mínimo das barras da armadura. Seria desejável que todos adotassem essa prática, que reforça o compromisso do profissional de projeto com as questões de qualidade e durabilidade da estrutura projetada e homogeneíza as informações entre partes, facilitando o trabalho de construtores e tecnologistas de concreto.
Às construtoras cabe tornar real o projeto elaborado pelo projetista, a partir das informações recebidas. Assim, é fundamental que os profissionais envolvidos em cada uma dessas tarefas mantenham uma estreita comunicação e que o máximo de detalhes seja fornecido aos construtores, para que tenham êxito nesse trabalho. A compra de materiais e a contratação de empresas para participarem do processo construtivo é também papel das construtoras, que devem ter em mente os preceitos da ABNT NBR 14931, que aborda algumas questões relacionadas ao projeto e outras do campo da tecnologia de materiais, referenciando sempre as normas usadas em cada caso e dando as diretrizes para que as etapas construtivas sejam executadas buscando tirar o máximo proveito do material concreto.
A Norma de execução de estruturas citada (ABNT NBR 14931) é contemporânea das normas brasileiras desenvolvidas focando a durabilidade e traz em seu bojo cuidados que visam o melhor desempenho da estrutura e sua execução respeitando as propriedades do concreto. A referência aos padrões estabelecidos para o recebimento do concreto está objetivamente definida nessa Norma e o atendimento aos procedimentos prescritos pela ABNT NBR 12655 é item obrigatório.
Simples à primeira vista, de uso difundido e custo acessível pela disponibilidade de seus materiais constituintes, o concreto guarda grande complexidade no desenvolvimento de suas inúmeras propriedades, muito importantes para a construção civil, o que tem garantido seu lugar como material de construção mais usado em todo o planeta.
A partir do conhecimento dos materiais e do resultado de diversas misturas elaboradas e testadas previamente, o responsável pela dosagem do concreto deve preparar o traço (proporcionamento de materiais) e inferir sobre seu desempenho mecânico após 28 dias, atendendo a todas as disposições normativas das ABNT NBR 7212 e ABNT NBR 12655.
No entanto, pela diversidade de materiais que podem entrar em sua composição, as propriedades e a inter-relação entre esses materiais em função do proporcionamento escolhido, o concreto pode ter características e propriedades distintas. Considerando as inúmeras variáveis que entram nessa complexa equação, apenas ensaios de desempenho atestam de forma definitiva o desempenho do concreto.
Para o recebimento do concreto na obra, as diretrizes normativas que registram as boas práticas experimentadas e comprovadas ao longo dos anos, estabelecem dois ensaios:
· Consistência, para assegurar a possibilidade de lançamento do concreto (preenchimento das formas)
· Resistência à compressão axial aos 28 dias, para comprovar o atendimento às premissas de projeto relativas à segurança estrutural.
São esses os parâmetros que devem ser medidos e avaliados para liberação da estrutura. Para sua determinação os documentos normativos trazem uma série de prescrições, que visam a obtenção de resultados confiáveis, sendo imprescindível a realização dos ensaios por laboratório capacitado, dotado de equipamentos calibrados, pessoal treinado, controles das condições ambientais (temperatura e umidade relativa) e outras tantas exigências que garantam a rastreabilidade de todo o processo.
3 - Quais os cuidados necessários na coleta do concreto, na moldagem do corpo de prova, transporte e armazenamento?
A coleta de amostras de concreto fresco deve ser realizada conforme estabelece a ABNT NBR NM 33, para que seja representativa do lote em análise. Essa Norma estabelece que as amostras devem ser tomadas do terço médio da betonada (quantidade de concreto preparado em uma betoneira ou caminhão-betoneira), de forma a evitar alguma heterogeneidade do início ou final da descarga do material.
Para as operações de moldagem dos corpos-de-prova a serem submetidos ao ensaio de ruptura, seu transporte, armazenamento e ruptura à compressão, devem ser seguidas as prescrições das normas ABNT NBR 5738 e ABNT NBR 5739.
A norma de moldagem determina que o diâmetro do corpo-de-prova cilíndrico deve ser igual ou maior a quatro vezes a dimensão máxima característica do agregado graúdo utilizado, ou seja, quando for usado agregado maior do que 25 mm, não se deve empregar moldes cilíndricos de 10 cm x 20 cm, mas sim moldes de 15 cm x 30 cm. As formas devem ser estanques e ter suas dimensões e configuração geométrica conforme as exigências estabelecidas nesse documento.
Nas primeiras idades, os corpos-de-prova devem ficar em local abrigado de intempéries e não devem ser submetidos a nenhum tipo de vibração, impacto ou outra solicitação que possa gerar imperfeições em sua estrutura. Vale salientar que os corpos-de-prova devem permanecer nas formas até no máximo a idade de 48 h.
É fundamental que o transporte dos corpos-de-prova até o laboratório de ensaios seja realizado de forma racional, sem submeter o concreto ainda jovem a condições desfavoráveis que possam interferir em sua integridade. A Norma recomenda o uso de caixas com areia ou materiais que diminuam a possibilidade de choques e evitem a perda de umidade dos corpos-de-prova.
Após a desforma, os corpos-de-prova devem ser mantidos em câmara úmida, com umidade relativa de 95% e temperatura de laboratório (23 ± 2)ºC até o momento do ensaio, que deve ser realizado em prensa classe 1 (conforme a ABNT NBR NM ISO 7500-1) calibrada na escala que será utilizada no ensaio de ruptura prescrito pela ABNT NBR 5739.
4 - Laboratórios com equipamentos calibrados e pessoal capacitado são fundamentais para garantir credibilidade do controle da qualidade do concreto. Quais os critérios devem ser levados em conta para escolher os laboratórios? Eles devem ser acreditados pelo Inmetro?
Seria muito bom se fosse possível ter, em todo o território nacional, laboratórios acreditados pelo INMETRO, porém infelizmente ainda não estamos em condições de fazer exigências como essa.
Caso o laboratório seja acreditado no INMETRO nos ensaios previstos para serem realizados, é ainda muito importante verificar se dispõe de técnicos qualificados por organismo de certificação credenciado (OCC) atestando sua capacitação para o controle tecnológico do concreto conforme a ABNT NBR 15146.
Caso não se disponha de laboratório com esse nível de certificação ou se deseje contratar um laboratório, independentemente de ser ou não certificado, é importante verificar se o mesmo está apto a desenvolver os ensaios e procedimentos necessários à comprovação da qualidade do concreto, tendo como instrumento de referência o que estabelecem as normas técnicas mencionadas anteriormente, bem como as referências normativas que as complementam.
5 – Como evitar que o concreto chegue à obra com resistência abaixo do especificado? Há uma norma técnica para regular esse tema?
Como já mencionado anteriormente, as Normas Brasileiras que orientam a atividade profissional contemplam todas as exigências para que seja fornecido um material que corresponda aos anseios dos envolvidos com a construção.
Em especial a ABNT NBR 7212 estabelece como deve ser pedido o concreto, quando se contrata uma empresa para sua dosagem e entrega na obra, e estabelece requisitos a serem obedecidos por essa empresa, como: o conhecimento dos materiais que entram na composição do concreto, as referências a serem adotadas durante a dosagem e a definição do traço, os ajustes do traço na obra e inclusive a quantidade máxima de água permitida a ser adicionada para ajuste de abatimento (medida da consistência conforme a ABNT NBR NM 67) no momento da descarga.
Ainda nesse sentido, a ABNT NBR 12655 prevê uma série de medidas para garantir a qualidade do concreto preparado em obra ou em central dosadora que devem ser também atendidas.
6 – Quais são as principais falhas no processo de controle tecnológico do concreto? Quais os procedimentos adotados por cada um dos envolvidos que podem evitar as falhas?
As principais falhas no controle tecnológico do concreto começam com a moldagem dos corpos-de-prova na obra por pessoal não habilitado para essa tarefa e podem ser agravadas por problemas de armazenamento desses corpos-de-prova em locais sujeitos a insolação, por exemplo.
O transporte dos corpos-de-prova até o laboratório que realizará a ruptura é também uma causa freqüente de problemas, quando realizada em desacordo com as exigências normalizadas, por danificar a estrutura interna do concreto ainda nas primeiras idades.
Soma-se a isso a estocagem dos corpos-de-prova em condições não climatizadas, o emprego de prensas não calibradas ou que realizem o ensaio fora da escala calibrada e a realização dos ensaios e procedimentos por pessoal não capacitado para a tarefa.
7 - Como a ABCP conseguiu coibir a má qualidade do cimento de algumas empresas, que não eram suas associadas, mas comercializavam cimentos não conformes? O que aconteceu com essas empresas?
Parece oportuno um pequeno histórico preliminar. De fato, em 2003 a ABCP decidiu criar um novo programa de monitoramento da qualidade,apesar do Selo de Qualidade, programa continuado da ABCP , com origem em longa data e outorgado aos produtos de suas Associadas que cumprem os requisitos do regulamento.Esse regulamento, elaborado com base em procedimentos estabelecidos por normas internacionais que envolvem inspeção na fabricação do cimento vem resultando num trabalho reconhecido pelos organismos governamentais de controle (Programa Setorial da Qualidade do PBQPH Entretanto, a partir de 2003 a ABCP, através de seu serviço de atendimento ao cliente começou a receber pedidos de informações sobre a qualidade de cimento não detentores do Selo de Qualidade. Como se tratavam de marcas novas, até então desconhecidas, a ABCP buscou conhecer a qualidade dos produtos ofertados no mercado nacional, diretamente nas casas de materiais de construção, abrangendo tanto empresas não associadas quanto associadas, promovendo a realização de ensaios de caracterização e de desempenho desses produtos.
Para manter a necessária isenção nesse processo, tanto a coleta das amostras como os ensaios foram realizados independentemente pelo IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo e tiveram como base o que estabelecem as Normas Técnicas vigentes que especificam a qualidade e os ensaios para sua comprovação.
À ABCP, coube divulgar esse estudo, principalmente junto às entidades de classe, de forma a alertar os consumidores de cimento de riscos que poderiam estar correndo por desconhecer a qualidade de produtos que não atendiam as normas e também a responsabilidade solidária dos lojistas ao comercializar produtos fora de norma.
Como resultado, algumas empresas se adequaram e passaram a oferecer produtos conformes e outras deixaram a atividade. O consumidor ganhou com esse trabalho e as empresas também, e a ABCP espera ter cumprido seu papel de zelar pela qualidade de um produto que tem impacto em toda a cadeia da produção.
8 - Que outros fatores podem levar à execução de uma estrutura com má qualidade?
Diversos fatores concorrem para que uma estrutura tenha má qualidade e talvez a causa mais freqüente seja a falta de capacitação técnica. Há estudos estatísticos realizados apontando as principais causas de desajustes e as maiores incidências de problemas costumam ocorrer nas etapas de projeto e execução das estruturas, cabendo aos materiais uma menor parcela de erro.
No entanto, o uso do concreto como material estrutural no Brasil é consagrado pela quantidade de obras já realizadas e a pouquíssima ocorrência de problemas de grande proporção. O País é conhecido internacionalmente pela excelência das obras executadas em concreto, pela audácia de nossos projetistas estruturais, pelo reconhecimento de nossos arquitetos e pelas inúmeras possibilidades nesse campo de atuação.
Passamos por um período de estagnação econômica que inviabilizou obras de infra-estrutura e encolheu empresas e escritórios de engenharia, que tentam agora se ajustar para atender à demanda reprimida com naturais dificuldades, em especial para a contratação de mão de obra capacitada e seu treinamento. Com o fôlego renovado em vista dos investimentos governamentais em obras e os incentivos para empresas de construção civil, os setores envolvidos devem passar ainda por um período de ajuste, acompanhado de crescimento, que sem dúvida trará ao País e à engenharia nacional a merecida posição de destaque.
Participaram:
Eng. Inês Laranjeira da Silva Battagin, Superintendente do ABNT CB18- Comitê Brasileiro de Cimento, Concreto e Agregados.
Eng. Rubens Curti, Especialista em concreto (ABCP).
Geól. Arnaldo Forti Battagin, Coordenador dos laboratórios da ABCP
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